A cannabis medicinal está cada vez mais presente no varejo farmacêutico brasileiro, mas sua expansão ainda enfrenta desafios relevantes em diferentes etapas da cadeia. Segundo análise publicada pelo Panorama Farmacêutico, os principais gargalos envolvem disponibilidade de produtos, variedade de formulações, gestão de estoque, preço do tratamento e integração entre prescrição, produto e dispensação. Na prática, o avanço regulatório e a maior presença da categoria nas farmácias não significam, por si só, acesso simples e imediato para o paciente.
Um dos pontos centrais está na distância entre a prescrição e a efetiva obtenção do produto. O paciente pode sair da consulta com indicação profissional, mas ainda encontrar dificuldade para localizar o item prescrito, especialmente em cidades menores ou regiões mais distantes dos grandes centros. Esse cenário cria um desafio para todos os envolvidos: prescritores, pacientes, farmácias, distribuidores e fabricantes.
Para o varejista, a categoria também exige cuidado operacional. Produtos à base de cannabis ainda estão em processo de consolidação no canal farmacêutico, o que torna a gestão de estoque mais complexa. Manter variedade suficiente para atender diferentes prescrições pode exigir capital imobilizado em produtos de giro incerto. Por outro lado, estoque insuficiente pode dificultar o acesso do paciente e interromper a continuidade do tratamento.
A composição do portfólio também é um desafio para as redes e farmácias. Após a aprovação regulatória, os produtos ainda precisam entrar efetivamente nas lojas, e essa entrada depende de critérios comerciais, análise de demanda, sobreposição entre formulações, negociação com fornecedores e estratégia de abastecimento. Segundo a matéria, o próprio processo regulatório é apontado como um entrave. Empresas conseguem reunir a documentação exigida pela Anvisa, mas o tempo de análise ainda pode ser longo. Mesmo depois da aprovação, há intervalo relevante até o produto chegar ao varejo.
Outro fator importante é o preço do tratamento. A relação entre concentração de canabinoides, custo por miligrama e desembolso inicial influencia diretamente o acesso do paciente. Produtos aparentemente mais baratos podem ter concentração menor, exigindo maior quantidade de gotas para atingir a dose prescrita. Por isso, a análise de preço não deve considerar apenas o valor da embalagem. É necessário avaliar a concentração, a dose recomendada e o custo efetivo do tratamento ao longo do tempo.
Esse ponto também é relevante para a orientação no balcão. Pacientes podem comparar produtos apenas pelo preço final, sem compreender diferenças de concentração, rendimento, volume, posologia e custo por dose. Nesse contexto, o farmacêutico possui papel estratégico. A categoria exige profissionais preparados para orientar o paciente com segurança, respeitando a prescrição e os limites técnicos e regulatórios. A equipe de atendimento também precisa ser capacitada para acolher, direcionar e fornecer informações adequadas sem extrapolar sua competência.
A capacitação deve abranger aspectos regulatórios, características dos produtos, diferenças de concentração, cuidados de uso, armazenamento, documentação necessária e limites da comunicação com o paciente. A cannabis medicinal não deve ser tratada como produto comum de varejo. Trata-se de uma categoria sensível, sujeita a regras sanitárias específicas, prescrição, controle, orientação profissional e acompanhamento terapêutico. Por isso, farmácias que desejam atuar nesse segmento precisam estruturar processos internos claros.
Isso inclui seleção criteriosa de fornecedores, conferência da regularidade dos produtos, controle documental, rastreabilidade, gestão de estoque, treinamento da equipe, atendimento farmacêutico e comunicação responsável ao consumidor. A tecnologia pode ajudar a reduzir parte dos gargalos. A integração de prescrições eletrônicas, ferramentas de suporte ao prescritor, sistemas de informação científica confiável e recursos digitais para conectar paciente, médico e farmácia podem tornar a jornada mais eficiente.
Essa integração é especialmente importante porque a jornada de tratamento com cannabis medicinal envolve múltiplas etapas. O paciente precisa de prescrição adequada, produto compatível, orientação de uso, acesso regular e continuidade terapêutica. Quando há falha em qualquer ponto, o tratamento pode ser interrompido ou dificultado. Programas de benefícios, ferramentas de suporte e plataformas de informação também podem contribuir para aproximar prescritores, pacientes e pontos de venda, desde que respeitem as normas sanitárias, a proteção de dados e os limites da publicidade de medicamentos.
Para o varejo farmacêutico, a mensagem é clara: a categoria representa oportunidade, mas exige maturidade operacional e regulatória. Não basta colocar produtos no portfólio. É necessário compreender a demanda, formar equipe, organizar estoque, definir processos de atendimento e garantir conformidade. Para farmácias independentes e pequenas redes, o desafio pode ser ainda maior, pois a imobilização de capital em produtos de alto valor e giro variável exige planejamento cuidadoso.
Ao mesmo tempo, a presença da cannabis medicinal no varejo pode ampliar o acesso do paciente a produtos regularizados e fortalecer o papel da farmácia como ponto de cuidado. O desenvolvimento da categoria dependerá da capacidade de integrar acesso, informação, segurança e conveniência. A farmácia não deve ser apenas o local de entrega do produto. Ela pode fazer parte de uma jornada assistencial mais ampla, com orientação farmacêutica, suporte ao paciente e uso racional.
A expansão da cannabis medicinal no Brasil ainda enfrenta gargalos, mas também abre espaço para profissionalização do varejo farmacêutico. O desafio será transformar uma categoria em crescimento em uma operação segura, sustentável e alinhada às exigências regulatórias.
Fonte: Panorama Farmacêutico. Acesso em: 14/09/26.